Imposto Sobre Apostas Desportivas em Portugal: Como Funciona o IEJO

Uma das perguntas que mais recebo é: “Pago imposto quando ganho nas apostas?” A resposta curta é não — o jogador não paga imposto sobre os ganhos. Mas a resposta completa é mais interessante, porque o imposto existe, chama-se IEJO, incide sobre os operadores, e acaba por afetar diretamente as odds que todos vemos no ecrã. Em 2025, este imposto gerou mais de 353 milhões de euros para os cofres do Estado português, um crescimento de 5,47% face ao ano anterior. É dinheiro a sério, e vale a pena perceber de onde vem e para onde vai.
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Estrutura do IEJO: Taxas e Incidência
Quando comecei a analisar o mercado regulado português, uma das primeiras coisas que me surpreendeu foi a estrutura do Imposto Especial de Jogo Online. A maioria dos jogadores nem sabe que existe, mas é o IEJO que define a carga fiscal sobre toda a atividade de jogo online em Portugal — e, indiretamente, molda a experiência de quem aposta.
O IEJO funciona de forma diferente para apostas desportivas e jogos de casino. Nas apostas desportivas à cota, o imposto incide sobre o volume total das apostas. Isto é fundamental: não incide sobre o lucro do operador, mas sobre cada euro apostado. A taxa varia entre 8% e 16%, aplicada de forma progressiva sobre o volume de apostas. Para os jogos de fortuna e azar — slots, roleta, blackjack — a base de incidência é a receita bruta do operador, com taxas entre 15% e 30%.
Na prática, o sistema cria duas realidades fiscais dentro do mesmo mercado. Um operador de casino online que gere bem o risco pode ter uma carga fiscal efetiva mais previsível, porque paga sobre aquilo que efetivamente retém. Já um operador de apostas desportivas carrega o peso do imposto independentemente do resultado — ganhe ou perca naquele evento específico. Esta diferença tem implicações práticas enormes. Num jogo de casino, o operador paga imposto sobre o que ganha depois de pagar os prémios. Nas apostas desportivas, paga sobre o volume bruto — independentemente de ter lucrado ou não com aquela aposta. É um modelo que penaliza particularmente as apostas de baixa margem, onde o operador trabalha com margens apertadas para oferecer odds competitivas.
No primeiro semestre de 2025, as receitas fiscais do jogo online atingiram 163,9 milhões de euros. Se projetarmos para o ano inteiro, os 353 milhões confirmados mostram uma aceleração no segundo semestre, acompanhando o aumento sazonal da atividade — Liga dos Campeões, ligas europeias em pleno, e o habitual pico de apostas no último trimestre do ano.
Impacto do IEJO nas Odds Oferecidas ao Jogador
Já alguma vez comparou as odds de um jogo da I Liga num operador português com as de um operador internacional sem licença? Se o fez, provavelmente notou uma diferença. Essa diferença tem nome: IEJO. É aqui que o imposto deixa de ser uma abstração fiscal e passa a afetar diretamente o bolso de quem aposta.
No terceiro trimestre de 2025, a margem dos operadores portugueses em apostas desportivas situou-se nos 19,8%, contra valores entre 22,9% e 25,9% nos trimestres anteriores. Essa descida da margem é um sinal positivo de concorrência, mas o ponto de partida é mais elevado do que noutros mercados europeus. A razão? O IEJO sobre volume obriga os operadores a compensar o custo fiscal através de margens mais elevadas nas odds.
Ricardo Domingues, presidente da APAJO, tem sido vocal sobre esta questão. Na sua análise, se nada for feito para tornar o produto mais competitivo face à oferta internacional, a tendência de desaceleração do mercado legal vai manter-se. E parte dessa competitividade passa pela fiscalidade: enquanto o imposto incidir sobre volume e não sobre receita, as odds portuguesas estarão estruturalmente abaixo das oferecidas em mercados com modelos fiscais diferentes.
Para o jogador, isto traduz-se numa desvantagem prática. Se dois operadores avaliam a mesma probabilidade de um evento, o operador português precisa de oferecer uma odd mais baixa para cobrir o imposto. Num único jogo, a diferença pode parecer insignificante. Mas ao longo de centenas de apostas, essa diferença acumula-se e corrói o retorno esperado. É uma realidade que qualquer apostador regular em Portugal deve ter presente ao gerir a sua banca.
Receitas Geradas para o Estado Português
Se há argumento que justifica a regulação do jogo online em Portugal, é este: 353 milhões de euros em receitas fiscais diretas num único ano. Esse número coloca o IEJO como uma fonte relevante de receita pública, comparável a setores inteiros da economia. E a tendência, apesar da desaceleração do crescimento do mercado, continua a ser ascendente — o aumento de 5,47% em 2025 mostra que o bolo fiscal cresce, mesmo que a fatia de crescimento anual seja mais fina do que nos anos de expansão rápida.
Mas há um contraponto que não posso ignorar. Com 40% dos jogadores a apostar em plataformas ilegais, o Estado está a perder uma fatia significativa de receitas potenciais. Se metade desse volume migrasse para o mercado regulado — um cenário otimista mas não impossível com medidas eficazes de combate ao jogo ilegal — as receitas do IEJO poderiam crescer substancialmente sem qualquer alteração nas taxas. O presidente da APAJO tem insistido neste ponto: o crescimento das receitas do Estado poderia ser mais significativo com uma aposta decidida no combate ao jogo ilegal.
Olhando para o panorama global do mercado, as receitas brutas totais do jogo online em Portugal atingiram 1,23 mil milhões de euros em 2025. As apostas desportivas representaram 42,8% desse total, com os jogos de fortuna e azar a completar os restantes 57,2%. O IEJO captura receita de ambos os segmentos, mas com estruturas diferentes — o que significa que o peso fiscal relativo de cada euro apostado varia consoante o produto.
Para o futuro, a discussão sobre o modelo fiscal do jogo online em Portugal está longe de encerrada. A pressão dos operadores para uma transição do imposto sobre volume para imposto sobre receita bruta — o modelo predominante na maioria dos mercados europeus — é constante. Uma mudança nesse sentido permitiria, em teoria, odds mais competitivas, menos incentivo para o mercado ilegal, e possivelmente receitas fiscais iguais ou superiores graças ao aumento do volume no mercado legal. Mas essa é uma decisão política que ultrapassa a minha análise técnica.
O jogador paga imposto sobre os ganhos nas apostas desportivas?
Não. Em Portugal, o IEJO incide sobre os operadores, não sobre os jogadores. Os ganhos obtidos em apostas desportivas legais não estão sujeitos a IRS nem a qualquer outro imposto sobre o rendimento do jogador. O imposto é pago pelo operador com base no volume de apostas ou na receita bruta, dependendo do tipo de jogo.
Como é que o IEJO afeta as odds comparativamente a outros países europeus?
O IEJO português incide sobre o volume total de apostas, enquanto a maioria dos mercados europeus tributa a receita bruta dos operadores. Este modelo obriga os operadores em Portugal a trabalhar com margens mais elevadas para cobrir o custo fiscal, resultando em odds tendencialmente mais baixas do que as oferecidas em mercados com fiscalidade sobre receita. A margem média dos operadores portugueses situou-se nos 19,8% no Q3 de 2025.
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